ANNA MARIA MAIOLINO


Apesar da origem italiana, a formação artística de Anna Maria Maiolino é latino-americana. Precocemente, inicia seus estudos de arte na Escuela de Artes Plásticas Cristóbal Rojas, em Caracas, Venezuela, em 1958. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1960 e freqüenta os ateliês de pintura e gravura da Enba. Na década de 1960, a artista concentra-se na xilogravura, paralelamente à produção de objetos. As paisagens e cenas de interior, as grandes áreas brancas demarcadas por figuras pretas de recorte suave dão lugar à figuração colorida de cunho narrativo com temas urbanos e/ou relacionados ao cotidiano e à condição da mulher. Maiolino torna-se uma das figuras-chave da exposição Nova Objetividade Brasileira, ocorrida no MAM/RJ em 1967. Sua aproximação à cultura popular dá-se mediante o interesse pela gravura dos folhetos de cordel, combinando seu estilo gráfico a temas sociais e políticos atuais.

Muda-se para os Estados Unidos em 1968, lá permanece por cerca de três anos. A artista volta-se para a poesia experimental, que rapidamente a leva ao desenho. Inicia uma produção importante de desenhos, que continua até os dias de hoje. Sua tônica é a investigação da materialidade do papel e os limites de sua espacialidade. A figura sai de cena e dá lugar a novos elementos, como cortes, dobras, costuras com linha, palavras escritas, incisões gravadas etc. A folha é explorada em sua existência sensível no espaço, sendo por vezes trabalhada frente e verso. São dessa fase séries como Mapas Mentais (1971) e os desenhos-objeto Buracos Negros (ca.1974), nos quais o plano pessoal e o político se amalgamam.

Mas a década de 1970 coloca Anna Maria Maiolino diante do desafio de experimentar outras formas de expressão, e ela realiza filmes e instalações. Sob a ditadura realiza o super-8 In-Out Antropofagia (1974) e as instalações Feijão com Arroz(1979)2 e Entrevidas (1981).

Na década seguinte a artista volta-se também à pintura. E de certa forma anuncia a preocupação com a gestualidade e a relação com a matéria, presente nos objetos escultóricos de parede e relevos (em argila, gesso e cimento) do início dos anos 1990. Pouco a pouco, Maiolino concentra-se no aspecto manual do fazer artístico e passa a usar quase que exclusivamente a argila. Elabora projetos com grande quantidade desse material, em que a repetição do gesto e seu registro na matéria assinalam enorme concentração de energia. Instalações como Muitos (1995) ou São Estes (1998) colocam o corpo no centro do trabalho de arte, ao mesmo tempo em que transformam o gesto desmemoriado do cotidiano em reservatório de experiência.